Loja virtual nova: o que combinar sobre nota fiscal antes do primeiro pedido
Antes de abrir a loja, combine com o contador qual documento fiscal cada venda exige, quem emite, como fica o cancelamento e a devolução, e teste o fluxo inteiro com um pedido fictício.
A loja de canecas personalizadas da Bia abriu numa sexta. No sábado, chegaram oito pedidos, o pagamento caiu e a transportadora pediu o documento para coletar as caixas. Ninguém tinha decidido quem emitia a nota, em qual sistema, com qual certificado. As canecas ficaram três dias paradas. A resposta curta: a obrigação fiscal começa no primeiro pedido, não quando der. Antes de abrir, combine com o contador qual documento cada tipo de venda exige, como ele nasce a partir do pedido e o que acontece no cancelamento e na devolução.
Este guia é sobre a conversa e o processo, do lado do negócio. A parte técnica de integrar a emissão ao sistema está no guia irmão sobre emitir a nota no pedido certo da loja virtual. Nada aqui substitui a orientação de um contador habilitado: regras fiscais variam por estado, por município e por regime tributário.
Por que a nota não pode ficar para depois
Numa loja física, o caixa emite o documento na hora da venda e pronto. Na loja virtual, a venda passa por várias etapas: pedido, pagamento aprovado, separação, envio, entrega. Se não ficou definido em qual delas a nota nasce, cada pessoa da equipe vai imaginar uma, e alguém vai emitir duas vezes ou nenhuma.
Além disso, mercadoria em trânsito costuma precisar estar acompanhada do documento fiscal, e transportadoras e marketplaces em geral exigem a nota para coletar ou liberar o pedido. Sem ela, o produto não sai, e o cliente que pagou fica esperando.
E há o lado de quem compra: o consumidor tem direito ao documento fiscal, e empresas que compram de você precisam dele para a própria contabilidade.
A conversa com o contador antes de abrir
Leve uma lista. Estas são as perguntas que costumam mudar o processo:
- Qual é o meu regime tributário e o que ele muda na nota? Simples Nacional, lucro presumido e MEI têm regras e campos diferentes.
- Qual documento cada venda exige? Venda de mercadoria com entrega geralmente pede NF-e; serviço costuma pedir nota de serviço, municipal. A NFC-e foi pensada para venda presencial ao consumidor. Confirme qual se aplica a cada produto e canal.
- Vendo para outros estados? Para consumidor final ou empresa? Venda interestadual para consumidor final envolve o diferencial de alíquota do ICMS, e isso precisa estar no cálculo de preço.
- Preciso de inscrição estadual e certificado digital? Quem emite NF-e precisa de certificado digital da empresa. Pergunte se o tipo A1 (arquivo) ou A3 (cartão ou token) faz mais sentido para a sua operação.
- Quais são os prazos e regras de cancelamento? E o que fazer depois que o prazo passa.
- Como registrar devolução e troca? Devolução normalmente envolve um documento próprio, não apenas apagar o pedido.
- Por quanto tempo guardar os XML e como o escritório vai recebê-los?
Como desenhar o fluxo do pedido à nota
Com as respostas, escreva o fluxo em uma página. Ele deve dizer, para cada etapa do pedido, o que acontece com o documento fiscal e quem é responsável.
Loja da Bia - fluxo fiscal (versão 1)
Pedido criado -> nada fiscal ainda
Pagamento aprovado -> pedido entra na fila "a faturar"
Separação conferida -> emitir NF-e (sistema da loja, certificado A1)
responsável: Bia; reserva: Léo
NF-e autorizada -> anexar DANFE à caixa, enviar XML e DANFE ao cliente
Coleta da transportadora -> só com NF-e autorizada
Cancelamento antes do
envio -> cancelar NF-e dentro do prazo; fora do prazo,
perguntar ao contador
Devolução -> registrar nota de devolução conforme orientação
do contador; estornar pagamento
Fim do mês -> exportar XMLs e enviar ao escritório até o dia 5
Repare que a nota nasce depois da separação, não no pagamento. Assim, se faltar produto no estoque, o pedido é cancelado sem precisar cancelar nota. Essa decisão é do negócio, combinada com o contador, e muda de loja para loja.
Como testar antes do primeiro cliente
- Use o ambiente de homologação do emissor ou do sistema. Notas emitidas lá não têm valor fiscal. Veja por que isso importa no guia sobre homologação que não é produção.
- Crie um pedido fictício completo, com destinatário de teste, e não com dados de um cliente real.
- Percorra o fluxo inteiro: pagamento, emissão, envio do XML, cancelamento e devolução.
- Confira os dados da nota com o contador: produto, classificação fiscal, natureza da operação, impostos.
- Só então mude para produção e emita a primeira nota real com alguém acompanhando.
Exemplo: o teste que salvou a Bia
Na segunda tentativa de abertura, a Bia fez o teste completo. A NF-e de homologação saiu com a classificação fiscal da caneca errada, porque o cadastro do produto veio de uma planilha antiga. O contador corrigiu o cadastro antes da primeira venda real. Se o erro tivesse ido para produção, seriam dezenas de notas com dado errado para corrigir uma a uma.
Erros comuns
- Tratar o comprovante do pagamento como documento fiscal: recibo do gateway não substitui a nota, e o cliente ou a transportadora vão cobrar.
- Emitir a nota no pagamento e cancelar quando falta estoque: gera cancelamentos em série e corrida contra prazo.
- Testar com dados de cliente real: expõe dados pessoais e pode gerar documento com valor fiscal por engano.
- Deixar o certificado digital no computador de todo mundo: qualquer pessoa emite em nome da empresa, e o controle some.
- Não definir quem emite quando o responsável falta: os pedidos param no primeiro dia de folga.
- Não guardar os XML: o emissor pode guardar, mas a obrigação de ter os arquivos continua sendo da empresa.
Checklist
- Sei, com o contador, qual documento cada tipo de venda exige.
- O fluxo do pedido à nota está escrito, com responsável e reserva.
- O certificado digital está com quem deve, e sei quando ele vence.
- Cancelamento e devolução estão no fluxo, não só na conversa.
- Testei o ciclo completo em homologação, com dados fictícios.
- O cadastro dos produtos foi conferido pelo contador.
- Os XML são guardados e enviados ao escritório com data combinada.
Os dados de cliente que circulam nesse fluxo também entram nas regras de proteção de dados; o guia de adequação à LGPD em sistema pequeno ajuda a organizar isso. Isto não é consultoria fiscal: é o lembrete de não separar a venda do documento.
Pegue o último pedido de teste da sua loja: ele gerou o documento fiscal que você guardaria de verdade, e você sabe dizer quem o emitiria se você estivesse de folga?
Referência: http://blog.olist.com/porque-e-importante-emitir-nota-fiscal-eletronica-no-e-commerce/