Finanças Por Equipe DevBras

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FII de shopping: o que você realmente compra quando a cota tem nome de shopping

Entenda de onde vem a receita de um fundo de shopping, quais indicadores do relatório gerencial importam e como testar se a cota cabe no seu plano. Isto não é recomendação.

Você passa no shopping do bairro num sábado, vê estacionamento lotado e pensa: se eu tivesse um pedaço disso, estaria bem. Descobre que existe um fundo imobiliário com participação nesse shopping e compra cem cotas. Três meses depois, o rendimento caiu e a cota recuou 12%. O shopping continuava cheio.

A resposta curta: a cota não é o shopping, é uma fatia de uma receita. O fundo costuma ter frações de vários empreendimentos, recebe aluguel mínimo mais um percentual das vendas, paga despesas e distribui o que sobra. O preço da cota oscila com juros, humor do mercado e expectativa sobre essa receita. Um artigo dizendo que o segmento é bom a longo prazo não conhece o seu prazo. Nada aqui recomenda entrar ou sair.

Como um fundo de shopping ganha dinheiro

O ponto de partida é a participação. É comum o fundo deter, por exemplo, 30% de um shopping, 15% de outro e 51% de um terceiro. A receita dele é a parte proporcional do resultado de cada empreendimento. Quando o relatório fala do "portfólio", fala dessa soma de frações.

A receita de um shopping costuma ter algumas fontes:

  • Aluguel mínimo: valor fixo do contrato com o lojista, normalmente corrigido por um índice de inflação.
  • Aluguel percentual: uma fatia das vendas da loja, cobrada quando ultrapassa o mínimo. É por isso que dezembro costuma ser forte.
  • Estacionamento: em muitos shoppings, parte relevante do resultado.
  • Cessão de direito de uso e mídia: receitas menores, às vezes irregulares.

Dessa receita saem os custos que o proprietário não repassa: área vaga (condomínio de loja vazia é do dono), inadimplência, comercialização. O que sobra no nível do imóvel é o NOI (resultado operacional líquido). Depois, o fundo ainda paga taxa de administração, gestão e, se tiver dívida, juros. Só então chega o rendimento distribuído.

Por que o shopping cheio e a cota caindo não se contradizem

Primeiro, o seu shopping pode ser 10% do portfólio. Os outros 90% podem estar indo mal. Segundo, o preço da cota responde aos juros: quando a renda fixa passa a pagar mais, parte dos investidores troca renda de aluguel por título público, e a cota cai mesmo com operação estável. Terceiro, o mercado antecipa. Se uma âncora (supermercado, loja de departamento) avisou que vai sair, a cota cai antes do rendimento.

Há também a sazonalidade. Fundos que repassam o resultado com defasagem podem distribuir mais no início do ano por causa das vendas de dezembro. Quem compra olhando o rendimento de um mês forte se decepciona no mês seguinte. O post sobre rendimento de fundo imobiliário que não é promessa trata disso com mais calma.

Como ler o relatório gerencial de um fundo de shopping

  1. Liste os empreendimentos e a participação em cada um. Some a área bruta locável proporcional e veja quanto cada shopping representa na receita. Se um responde por metade, o fundo é, na prática, aposta nele.
  2. Olhe a taxa de ocupação de cada shopping, não só a média. Uma média de 95% pode esconder um empreendimento com 80%.
  3. Acompanhe as vendas por metro quadrado e a variação anual. Vendas crescendo acima da inflação sustentam aluguel percentual e renovação de contratos.
  4. Procure inadimplência e custo de ocupação. Custo de ocupação é quanto o lojista gasta com aluguel, condomínio e fundo de promoção em relação ao que vende. Lojista sufocado não renova ou pede desconto.
  5. Verifique endividamento. Fundo que comprou shopping com dívida indexada a juros sente a alta da taxa no rendimento.
  6. Compare NOI e rendimento distribuído ao longo de vários trimestres. Se o fundo distribui consistentemente mais do que gera, há reserva sendo consumida ou receita não recorrente entrando.

Exemplo trabalhado: testando a cota contra o seu plano

Marina tem R$ 20.000 aplicados, sendo R$ 8.000 de reserva de emergência e R$ 12.000 que ela não pretende usar por cinco anos. Ela quer colocar R$ 6.000 num fundo de shopping fictício, SHOP11, com cota a R$ 100 e rendimento recente de R$ 0,70 por mês.

Primeiro teste, o da origem do dinheiro: os R$ 6.000 saem dos R$ 12.000 de longo prazo, não da reserva. Passou. Segundo teste, o da queda: se a cota cair 30%, as 60 cotas passam a valer R$ 4.200. Se ela precisasse vender nesse momento, perderia R$ 1.800. Ela aguenta não vender por anos? Terceiro teste, o do rendimento:

Rendimento mensal estimado: 60 cotas x R$ 0,70 = R$ 42,00
Se o rendimento cair 25%:   60 cotas x R$ 0,525 = R$ 31,50
Diferença por mês:          R$ 10,50

Se Marina contava com os R$ 42 para pagar uma conta fixa, o plano quebra no primeiro trimestre ruim. Se o rendimento é reinvestido, a oscilação incomoda mas não derruba nada. Quarto teste, o da concentração: ela já tem outro fundo de shopping? Se sim, são dois bilhetes para o mesmo risco de consumo.

Nenhum desses testes diz se SHOP11 é bom. Eles dizem se o encaixe na vida de Marina é coerente. A qualidade do fundo vem do relatório; o encaixe vem dela.

Erros comuns

  • Avaliar o fundo pelo shopping que você frequenta. Ele pode ser uma fração pequena do portfólio, e a sua impressão de um sábado não é taxa de ocupação.
  • Usar o rendimento de janeiro como média. A sazonalidade das vendas de fim de ano infla alguns meses e frustra os seguintes.
  • Colocar reserva de emergência em cota. A cota pode estar 20% abaixo justamente quando você precisar vender.
  • Tomar "longo prazo" do título do artigo como plano. Longo prazo sem saber o que o fundo possui é só esperar sem critério.
  • Ignorar a dívida do fundo. Alta de juros aumenta o custo da dívida e reduz o que sobra para distribuir.
  • Não separar descrição de opinião no texto de mercado. O dado do relatório é fato; a frase "segmento promissor" é opinião do autor.

Checklist

  • Sei quais shoppings o fundo possui e qual a participação em cada um.
  • Identifiquei se algum empreendimento concentra mais de um terço da receita.
  • Conferi ocupação, vendas por metro quadrado e inadimplência no último relatório.
  • Comparei NOI e rendimento distribuído em pelo menos quatro trimestres.
  • Verifiquei se o fundo tem dívida e a que está indexada.
  • O dinheiro aplicado não é reserva de emergência.
  • Simulei uma queda de 30% na cota e de 25% no rendimento e o plano continua de pé.

Este texto é educativo, não é recomendação de investimento e não substitui um profissional certificado. Para conferir as regras e os documentos de um fundo, use o site do administrador e os informes publicados. E a pergunta que fica: se a cota do seu fundo de shopping cair pela metade amanhã, o seu plano ainda existe ou ele era só o título do artigo?

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Referência: https://www.euqueroinvestir.com/fiis-de-shopping-bom-investimento-a-longo-prazo/