Multímetro: medir continuidade e resistência sem queimar o fusível
Saiba em qual entrada e escala colocar as pontas, por que continuidade e resistência só se medem sem energia, e siga uma ordem que protege você e o aparelho.
O LED da protoboard não acende, você gira o seletor para o bipe de continuidade e encosta as pontas nos trilhos com a placa ainda ligada no USB. O visor mostra números sem sentido, ou o bipe toca onde não devia. Em outro dia, com a ponta vermelha esquecida na entrada de corrente, você mede a tensão de uma fonte e ouve um estalo: o fusível interno abriu. Continuidade e resistência só se medem com o circuito desligado. Tensão se mede com a ponta na entrada de tensão e a escala acima do valor esperado.
A resposta curta: ponta preta sempre no COM; vermelha na entrada marcada com V e Ω para quase tudo; entrada de corrente só quando você vai medir ampère em série. Antes de medir continuidade, desligue a fonte, tire o USB e confirme com a escala de tensão que não sobrou nada.
Por que medir resistência com energia dá errado
Nas escalas de resistência e continuidade, o multímetro injeta uma pequena corrente pelas pontas e calcula a resistência pela tensão que aparece. Ele assume que essa corrente é a única no circuito. Com uma fonte ligada, a tensão do circuito se soma à do aparelho, a conta perde o sentido e o valor exibido é lixo. Dependendo da tensão, a entrada do multímetro pode ser danificada.
A entrada de corrente tem outro risco. Para medir ampère, o multímetro coloca entre as pontas uma resistência minúscula, quase um fio. Se você encostar essas pontas nos terminais de uma fonte, como faria para medir tensão, criou um curto através do aparelho. Em aparelhos com fusível, ele abre. Em aparelhos baratos sem fusível na entrada de 10 A, o dano pode ser no próprio multímetro, e a ponta esquenta na sua mão.
Há ainda a carga guardada. Capacitores de fonte continuam carregados por segundos ou minutos depois de desligar. Tirar o plugue não garante circuito morto; medir a tensão garante.
As entradas e escalas que importam
- COM: ponta preta, sempre.
- VΩ (às vezes VΩmA): ponta vermelha para tensão, resistência, continuidade e teste de diodo. É onde ela deve morar.
- mA ou 10A: ponta vermelha só para medir corrente, com o aparelho em série no circuito. Depois de medir, volte a ponta para VΩ.
- V com traço reto (DC) e V com til (AC): tensão contínua de pilha, fonte e Arduino é DC. Tomada é AC.
- Ω: resistência. Em aparelhos manuais, comece pela escala mais alta se não souber o valor.
- Símbolo de som ou de diodo: continuidade (bipa abaixo de uma resistência baixa, que varia de modelo para modelo) e teste de diodo.
Como depurar um circuito com o multímetro, na ordem certa
O caso que vai atravessar o texto: um Arduino Uno numa protoboard grande, com um LED ligado ao trilho de 5 V do lado direito. O LED do lado esquerdo acende; o do lado direito, não.
- Diga o que você vai medir. "Quero saber se há 5 V no trilho do lado direito." Se a frase é sobre tensão, o circuito fica ligado. Se é sobre "este fio está inteiro", ele vai ser desligado.
- Meça tensão com o circuito ligado. Seletor em V DC, escala de 20 V se for manual. Preta no GND do Arduino, vermelha no trilho esquerdo: 4,98 V. Vermelha no trilho direito: 0,00 V. O problema está entre os dois.
- Desligue tudo. Tire o USB e qualquer fonte externa.
- Confirme que desligou. Ainda em V DC, meça o trilho esquerdo de novo: tem que dar perto de zero. Só agora o circuito está pronto para continuidade.
- Meça continuidade. Seletor no bipe. Encoste as pontas uma na outra para confirmar que o bipe funciona. Depois, uma ponta no começo do trilho de 5 V e outra no fim.
- Interprete. No caso do exemplo, não bipou. Muitas protoboards grandes têm os trilhos de alimentação divididos ao meio, e a metade direita não estava ligada à esquerda. Um jumper curto entre as metades resolveu.
- Religue e meça tensão de novo para confirmar a correção.
Esse tipo de falha, fio que parece ligar e não liga, é tema de jumper na protoboard: o fio certo no furo certo. Os jumpers baratos também quebram por dentro da capa; o teste de continuidade de ponta a ponta, flexionando o fio, encontra o defeituoso.
Medindo resistência de verdade
Para conferir um resistor, tire-o do circuito ou levante pelo menos um terminal. Com ele soldado, você mede a combinação dele com tudo o que estiver em paralelo, e o valor sai menor. O passo a passo de leitura das cores, para comparar com a medida, está em código de cores dos resistores.
Medindo corrente sem curto
Corrente se mede com o multímetro no caminho, não em paralelo. Desligue, abra o circuito num ponto (por exemplo, tire o fio que alimenta o LED), coloque a ponta vermelha na entrada de mA, ligue as pontas fechando o caminho interrompido e só então energize. Leu, desligue, volte a ponta vermelha para VΩ. Esse último passo evita o estalo da próxima medição de tensão.
E na tomada?
Medir tensão de rede, 127 ou 220 V, não é a mesma coisa que medir uma placa de 5 V. Exige um multímetro com categoria de segurança adequada para instalações (marcada como CAT II, CAT III ou superior no aparelho), pontas sem rachaduras, as mãos atrás das proteções das pontas e nunca a escala de corrente ou resistência. Medir continuidade em fiação de casa exige desligar o disjuntor e confirmar a ausência de tensão antes. Se você não tem prática com rede elétrica, não comece por ela; isto não substitui um eletricista habilitado. Para entender a fronteira entre o Arduino e a rede, leia relé no Arduino e a rede elétrica.
Erros comuns
- Medir continuidade com o circuito energizado: leitura falsa e risco de danificar a entrada do aparelho.
- Esquecer a ponta vermelha na entrada de corrente: a próxima medição de tensão vira curto e abre o fusível ou danifica o multímetro.
- Confiar que tirar o plugue zerou o circuito: capacitores carregados enganam a medição e podem dar choque em fontes maiores.
- Medir resistor soldado na placa: componentes em paralelo fazem o valor parecer menor.
- Escala manual abaixo do valor esperado: o visor mostra 1 ou OL e você conclui que o circuito está aberto.
- Usar multímetro de bancada sem categoria de segurança na rede elétrica: uma sobretensão pode destruir o aparelho na sua mão.
Checklist
- Ponta preta no COM e vermelha em VΩ antes de qualquer medição.
- Você disse em voz alta o que vai medir antes de girar o seletor.
- Para continuidade e resistência, a fonte e o USB estão desconectados.
- Você confirmou com a escala de tensão que o circuito está em zero.
- Testou o bipe encostando uma ponta na outra.
- Resistores medidos fora do circuito.
- Depois de medir corrente, voltou a ponta vermelha para VΩ.
Olhe agora para o seu multímetro, sem tocar em nada. Em qual entrada está a ponta vermelha, e a escala no seletor é a da próxima frase que você vai dizer? Se a resposta for "mA" e a frase for "tensão da fonte", troque antes de encostar.
Referência: https://blogdaliga.com.br/como-utilizar-um-multimetro-simples/